Túlio Cesar Costa Leite
A doutrina do batismo infantil, conforme compreendida na teologia do pacto, é resultado da convicção bíblica de que Deus lida com o seu povo por meio de alianças, nas quais os filhos dos crentes são incluídos visivelmente na comunidade do pacto.
Desde o livro de Gênesis, Deus declara que sua relação redentora não se limita a indivíduos isolados, mas alcança também sua família. Em Gênesis 17:7, Deus afirma a Abraão: “Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência no decurso das suas gerações, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência.”
Deus declara que é Deus não apenas dos crentes, mas também de seus filhos. Essa estrutura pactual é chamada de “aliança perpétua”. O sinal externo da aliança, naquele momento, foi a circuncisão; no Novo Testamento, esse sinal é substituído pelo batismo (cf. Cl 2.11–12), sem que a estrutura familiar do pacto seja revogada.
A inclusão dos filhos é reiterada ao longo da história redentiva. Em Êxodo 12:24, ao instituir a Páscoa, o Senhor ordena:
“Guardai, pois, isto por estatuto para vós outros e para vossos filhos, para sempre.”
A redenção não era celebrada apenas pelos adultos, mas por famílias inteiras, cabendo aos pais ensinar seus filhos a interpretar os atos salvadores de Deus.
Do mesmo modo, em Deuteronômio 5, Moisés declara que a aliança feita em Horebe não dizia respeito apenas às gerações passadas, mas aos que estavam vivos naquele momento — incluindo os filhos presentes na congregação de Israel:
“Não foi com nossos pais que fez o Senhor esta aliança, e sim conosco, todos os que, hoje, aqui estamos vivos” (Dt 5:3).
A Escritura, portanto, trata os filhos do povo de Deus como participantes efetivos da comunidade pactual, e, ao contrário dos pagãos, que devem ser evangelizados, os filhos dos crentes devem ser discipulados.
Essa realidade é ainda mais profunda. Devemos notar como Deus vê as crianças que nascem dentro da comunidade pactual. Em Ezequiel 16:20–21, o Senhor chama os filhos de Israel de “meus filhos”, mesmo quando estes ainda não possuíam fé consciente:
“Demais, tomaste a teus filhos e tuas filhas, que me geraste, os sacrificaste a elas, para serem consumidos. Acaso, é pequena a tua prostituição? 21. Mataste a meus filhos e os entregaste a elas como oferta pelo fogo.”
Isso revela que, no âmbito da aliança, os filhos pertencem a Deus de modo objetivo, a regeneração dos filhos do pacto pode ser presumida, enquanto que àqueles que nascem fora da comunidade pactual é dito:
“Os ímpios erram o caminho desde o ventre” (Sl 58:3).
Mas , quanto aos filhos dos crentes:
“Desde o ventre materno dependo de ti” (Sl 71:6).
Esses textos afirmam duas verdades essenciais da teologia do pacto:
As crianças necessitam da graça; Deus age soberanamente nelas desde o início da vida.
Essa atuação divina sobre os filhos dos crentes é confirmada em passagens como Jeremias 1:5, onde o Senhor diz:
“Antes de você nascer, eu o separei.”
E em Lucas 1, onde João Batista se alegra ainda no ventre materno diante da presença do Messias:
“O bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria” (Lc 1:44).
Esses textos não ensinam a regeneração automática de todos os bebês, indiscriminadamente, mas demonstram que a obra de Deus não está limitada à idade da razão.
Por isso, a Escritura constantemente ordena que os filhos do pacto sejam instruídos como membros da comunidade da fé. Em Deuteronômio 6:6-7, o Senhor ordena:
“Ensine com persistência a seus filhos.”
Isaías reforça essa relação pactual ao afirmar:
“Todos os seus filhos serão ensinados pelo Senhor” (Is 54:13).
No Novo Testamento, esse padrão permanece. Paulo reconhece em Timóteo uma fé transmitida no contexto familiar:
“A fé que habitou primeiro em tua avó Loide e em tua mãe Eunice” (2 Tm 1:5)…
e afirma que ele conhecia as Escrituras “desde a meninice” (2 Tm 3:15).
Nada disso teria sentido se as crianças fossem consideradas como estranhas à comunidade do pacto até atingirem idade adulta.
O próprio Cristo confirma essa doutrina quando repreende os discípulos e declara:
“Deixai vir a mim os pequeninos… porque dos tais é o reino de Deus” (Lc 18:16).
Jesus não diz que o reino será dos pequeninos futuramente, mas que pertence a eles pertence hoje. Os filhos dos crentes não são a igreja do futuro, são a igreja do presente e o batismo é o sinal visível de pertencimento à comunidade da aliança, a marca externa de que aquela criança foi separada para Deus, colocada sob os privilégios, promessas, ensino e disciplina do povo do Senhor.
Batizar os filhos dos crentes é confessar publicamente que Deus continua sendo fiel à sua promessa:
“Para ser o teu Deus e da tua descendência depois de ti.”
É afirmar que a graça os precede, acompanha e chama — e que os filhos da igreja devem ser criados não como estrangeiros, mas como herdeiros das promessas, tendo a convicção de que eles confirmarão aquilo que Deus já lhes havia dado desde o início de suas vidas.
